Espiritismo – Conceitos sobre o éter e os fluidos

A codificação espírita, consolidada por Allan Kardec veio para desmistificar muitos fenômenos. A razão e a razoabilidade permeia todo a doutrina e por isso este trabalho foi colocado nas mãos de um rigoroso e metódico cientista. Alguns conceitos como éter, fluidos e a ponderabilidade da matéria eram questões importantes na comunidade acadêmica vigente na década de 1850. Ao entender o contexto histórico, se compreende melhor a grande ênfase dada a estes temas no Livro dos Espíritos e no Livro Gêneses.
Tentando entender os conceitos de fluidos e éter aplicados na codificação espírita sem o contexto científico da época, por vezes, conclui que Allan Kardec havia feito perguntas aos espíritos equivocadas ou desnecessárias. Ok, era bem provável que eu estivesse certa e Kardec errado. Hummm… talvez não. Considerando a hipótese de que eu precisava me empenhar realmente a entender o que estava sendo dito naquelas linhas de texto, pude mais uma vez me surpreender com a grandiosidade do trabalho de Allan Kardec.
Cabe ressaltar aqui que o renomado professor Hippolyte Léon Denizard Rivail, que mais tarde adotou o pseudônimo de Allan Kardec, nasceu na cidade de Lion na França, no início do séc. XIX, no dia 3 de outubro do ano de 1.804. Era um dos gramáticos mais famosos da França e apresentava trabalhos reconhecidos no campo da química, física, aritmética, anatomia e astronomia, dentre outros. Em um momento no qual ele se via investido em estudos acerca do fluido magnético (magnetismo), remontando os primeiros acordes desta ciência trazidos por Franz Mesmer em 1770, o professor Hippolyte foi surpreendido no ano de 1854, pela história das mesas girantes.
“Encontrando-me um dia com o Sr. Fortier, magnetizador que eu conhecia, havia muito, e disse-me ele: – Sabeis que se acaba de descobrir no magnetismo uma singular propriedade? Parece que não somente as pessoas que se magnetizam, mas também as mesas que giram e andam à nossa vontade. – É com efeito singular – respondi-lhe – mas isso não me parece rigorosamente impossível”. [6]
Assim, convidado a assistir as reuniões nas quais eram promovidos os efeitos de mesas que simplesmente giravam no concurso da proximidade de pessoas, ele passou a investigar, com o seu olhar científico, todas as possibilidades de explicação daquele fenômeno. Percebendo que havia ali não só uma nova descoberta física, mas também a influenciação de serem inteligentes que respondiam perguntas diversas, ele notou a revelação do mundo espiritual. O professor, mantendo todo o seu reconhecido critério científico, começou a confrontar respostas vindas de vários comunicantes (médiuns) de locais distantes. Lançando perguntas, Kardec foi catalogando as que lhe eram retornadas com frequência, eliminando, assim, a influenciação do médium.
Este catálogo de perguntas e respostas, mais tarde culminou no Livro dos Espíritos, publicado em 18 de Abril de 1857. Este foi escrito no auge do Iluminismo. Época em que a ciência e a razão eram exacerbadas. A princípio, o trabalho de Kardec impressionava a comunidade científica pelo cuidado de sua metodologia e dos resultados obtidos, mas quando os espíritos começaram a falar que Deus é a causa primeira de todas as coisas, não agradou muito os iluministas. Da mesma forma, ele começou a incomodar a Igreja da época, que enquanto Kardec se ocupava apenas do magnetismo, o seu trabalho era visto com bons olhos, mas somente a Igreja poderia falar de Deus. Após uma grande fogueira em praça pública de uma centena de cópias do Livro dos Espíritos, promovida pela Igreja, o interesse pela obra foi exponencialmente crescente, pois levantou a curiosidade de um trabalho escrito por tão renomado cientista.
Cabe destacar que o modelo do átomo foi considerado inicialmente por John Dalton, em 1808, como uma bola de bilhar indivisível. Este modelo perdurou até que Joseph John Thomson que, em 1887, descobriu a existência do elétron. Então, no ano de 1911, o cientista neozelandês Ernest Rutherford apresentou o modelo do átomo que se assemelharia ao sistema solar. Neste modelo, o átomo seria composto por um núcleo indivisível, comparado ao nosso Sol, e partículas denominadas elétrons que circundam este núcleo, se assemelhando com os nossos planetas. Este modelo foi aprimorado logo em seguida pelo cientista Niels Henry David Bohr que em 1913 apresentou a capacidade dos elétrons de emitirem energia e saltar de órbitas. Assim, no momento da escrita do Livro dos Espíritos, ainda não se falava em elétrons ou de energia, que vieram somente em 1887.
Surpreende-nos o trabalho de Kardec que, cuidadosamente, questionou aos Espíritos a explicação dos fluidos, da matéria e do éter ou fluido universal. Temas mais tarde retomado em em seu livro A Genese. Não era de se surpreender tal inquietude, visto que na época eram questões extremamente discutidas na comunidade científica.

O éter

A tradição materialista na filosofia ocidental, começou com Demócrito, no século V a.C., que afirmou que tudo que existe compõe-se de átomos (partículas invisíveis de matéria) em constante movimento no espaço vazio. Mais tarde, este espaço entre os átomos foi preenchido pelo conceito do éter, que seria a quinta essência, além da água, terra, fogo e o ar. O éter também sofreu grandes modificações na sua conceituação ao longo do tempo.
O primeiro conceito de éter o define como um meio elástico, impalpável e indetectável, através do qual a luz se propagaria. Este conceito havia sido descartado pela ciência desde 1687. No entanto, por não haver outras explicações para fenômenos como a propagação da luz e do eletromagnetismo do final do século XIX, o éter não havia sido desconsiderado totalmente pela comunidade científica. Mais tarde, em 1905, com a publicação do artigo “ Teoria da Relatividade Restrita” de Einstein o conceito de éter foi finalmente descartado, abrindo espaço para a volta do vácuo, ou seja, a ausência de matéria. Tal possibilidade do vácuo foi desmantelada em 1927, com o Princípio da Incerteza de Heisenberg.

Já em 1927, o Princípio da Incerteza de Heisenberg havia levado físicos a predizer que partículas poderiam surgir espontaneamente no vácuo, desde que desaparecessem num tempo suficientemente curto. O Efeito Casimir é uma comprovação experimental de que, mesmo no vácuo mais absoluto que a tecnologia consegue produzir, “algo existe”. Hoje em Por dia a maioria dos físicos vê o vácuo como um lugar extremamente ativo, com diversos tipos de partículas surgindo e desaparecendo.[3]

Cabe ressaltar que aos olhos da física atual se o vácuo não é o antigo éter-matéria, também não é o nada absoluto que alguns imaginam que Einstein tenha criado quando deu fim ao éter com sua Teoria da Relatividade Restrita. Ou seja, para a ciência atual, alguma coisa existe.
Diante de questões importantes acerca da existência ou não do éter, Kardec questiona os espíritos sobre a existência do “nada absoluto” e tem respostas que deveriam ter deixado o nosso professor pensativo.
36. O vácuo absoluto existe em alguma parte no Espaço universal?
“Não, não há o vácuo. O que te parece vazio está ocupado por matéria que te escapa aos sentidos e aos instrumentos.” [1]
No Livro dos Espíritos o conceito de éter dá lugar ao conceito de Fluido Cósmico Universal, ou simplesmente, Fluido Universal. Neste conceito, o Fluido Universal ocupa todos os lugares e permeia todos os seres e materiais. Ainda, o Fluido ou Principio Vital, que nos dá a vida, nada mais é do que modificações do Fluido Universal. Cabe ressaltar que o termo Fluido Universal não foi cunhado pelos espíritos, visto que em 1765, o médico alemão Franz Anton Mesmer, conquistou o doutorado com a dissertação “Dissertatio physico-medica de planetarum influxu”, no qual tratava a influência dos planetas sobre o corpo humano. Nesta dissertação ele usou pela primeira vez o conceito de Fluido Universal, mas como as teorias de Mesmer era muito criticadas na sociedade médica, poucos falavam de seu trabalho.

Mesmo em se tratando de um termo conhecido, pouco se conhecia do Fluido Universal. Era sabido que se tratava na época de uma teoria ainda a ser revelada, conforme apresentado no livro que compõe a codificação espírita “A Genese”.

Os elementos fluídicos do mundo espiritual escapam aos nossos instrumentos de análise e à percepção dos nossos sentidos, feitos para perceberem a matéria tangível e não a matéria etérea. [4]
Na tentativa de trazer-lhes o impacto destas narrativas, preciso esclarecer-lhes que havia um outro grande debate daquela época, o conceito de fluidos.

Os Fluidos

Para trazer os conceitos de fluidos, é preciso voltar um pouco na história e explicar o caminho da ciência transitando neste contexto. Há que se esclarecer que o Mecanicismo é um conceito da física que surgiu no começo do século XVII e se baseava no fato de que todos os acontecimentos ou ações deveriam ser explicáveis pelas leis da mecânica, ou seja, as leis do movimento da matéria.
As leis da mecânica apresentadas por Newton, apesar de ter fundamentos materialistas, ou seja, aceitava somente a existência de matéria e movimento, admitia a existência de algum “Deus”, que teria sido o iniciador dos movimentos contínuos, visto que a matéria era sempre passiva. Esta visão de Deus era corroborada com as ideias de Aristóteles (384 – 322, A.C.), que afirmava que o Universo, inclusive o homem, seria um “Todo” orgânico, comandado por uma “alma” que se chama Deus. Com a chegada do “Pensamento Moderno”, principalmente com Galileu (1564/1642, Itália), Descartes (1596/1650, França) e Isaac Newton (1642/1727, Inglaterra), a ideia de que a Natureza seria um “Todo” orgânico foi substituída pela tese de que era, na verdade, uma “Máquina” e tudo era explicável mediante o uso da “Lei do Movimento”. O mecanicismo explicava até o funcionamento do corpo humano e os seus órgãos.
Como não havia nada além da matéria e do movimento, ou seja, os conceitos de energia e espírito estavam descartados, os efeitos da luz, do calor, da eletricidade e do magnetismo eram explicados pela matéria denominada fluido luminífero, fluido calorífico ou calórico, fluido elétrico e fluido magnético. O conceito de fluido era imerso no entendimento mecanicista vigente. Ou seja, o fluido era matéria e tinha comportamento como tal. Diante disto, os fenômenos da ação do calor, por exemplo, descrito por Antoine Lauret de Lavoisier (1743 – 1794), era semelhante ao mecanicismo da matéria.
Ao explicar o fluído calorífico, por exemplo, se dizia que havia um movimento de partículas que preenchiam espaços entre partículas do receptor, que literalmente se “enchia” de calor. Assim, a pessoa recebia partículas do calórico. Bom, pense bem, se havia um aumento de partículas, então a pessoa teria a sua massa aumentada, certo? Então, não identificando este aumento hipotético de massa, os cientistas concluíram que essas partículas dos fluidos eram imponderáveis, ou seja, não tinham massa. Este mesmo conceito era aplicado ao fluido elétrico, fluido nervoso e fluido magnético.
O conceito de calor, à época era considerado um fluido imponderável, o fluido calórico de Antoine Laurent de Lavoisier (1743-1794), que suplantou o flogisto de Georg Ernst Stahl (1659-1734), também foi crucial na busca por máquinas mais eficientes e, consequentemente, menos dispendiosas. A construção de uma ciência do calor, cujas bases alicerçaram-se sobre os trabalhos de muitos, como Jean-Baptiste Joseph Fourier (1768-1830), S. Carnot e Benoît Paul-Émile Clapeyron (1799-1864), foi imprescindível para que se avançasse das máquinas à termodinâmica e, consequentemente, à conservação da energia [3]

Observem que Fourier e Clapeyrom incitaram as discussões sobre a ciência do calor por volta de 1850, e o livro dos espíritos teve a sua publicação em 1857. Nesta época, a visão de natureza newtoniana, mecanicista, era o paradigma vigente na ciência. Assim, é natural e oportuno que Kardec levante questões acerca da matéria e dos fluidos.
29. A ponderabilidade é um atributo essencial da matéria?
“Da matéria como a entendeis, sim; não, porém, da matéria considerada como fluido universal. A matéria etérea e sutil que constitui esse fluido vos é imponderável. Nem por isso, entretanto, deixa de ser o princípio da vossa matéria pesada.”[1]
65. O princípio vital reside em algum dos corpos que conhecemos?
“Ele tem por fonte o fluido universal. É o que chamais fluido magnético, ou fluido elétrico animalizado. É o intermediário, o elo existente entre o Espírito e a matéria.”[1]
Interpreto esta resposta “é o que chamais” como algo assim “vocês entendem por isso” ou “é quase isso”. Na época, pouco se falava sobre energia e era muito vanguardista falar sobre coisas como a influência de um campo eletromagnético.

Cabe ressaltar que a codificação espírita foi concebida no berço do Iluminismo, em uma época em que a ciência estava em glória os conceitos estavam se transformando e o todo novo conhecimento aflorado era experimentado pelos cientistas. Tais fenômenos da experimentação aconteceram no berço do espiritismo, sendo o caso das irmãs Fox, que eram perseguidas por batidas nas paredes e portas das casas nas quais elas se encontravam, um dos mais conhecidos.
Na pergunta 388 do Livro dos Espíritos, há uma resposta inusitada, e hoje penso como ela deve ter intrigado Alan Kardec, visto que a teoria de campo ainda não havia sido consolidada.
388. Os encontros, que costumam dar-se, de algumas pessoas e que comumente se atribuem ao acaso, não serão efeito de uma certa relação de simpatia?
“Entre os seres pensantes há ligação que ainda não conheceis. O magnetismo é o piloto desta ciência, que mais tarde compreendereis melhor.”[1]
Não havia, naquela época, a sedimentação do conceito da influenciação dos campos. Visto que, apenas mais tarde, a teoria de mecanicista foi gradualmente confrontada pela teoria clássica de campos, que teve como marcos os artigos de James Clerk Maxwell de 1856, 1861/1862 e 1864, em um movimento denominado desmecanização da física.

No contexto da física, o termo “campo” denota a capacidade das forças de agirem através do espaço, sem se restringir à ação por contato, mas também sem se confundir com a ação a distância. A caracterização mais informal e geral do conceito de campo tem a ver com a noção de “zona de influência” de um corpo. [2]

A partir de então, a teoria de campos mudou toda a forma de pensar da ciência. Passamos a observar que uma agulha pode mudar de direção se aproximada da influenciação de um campo magnético. Sabemos também que ao aproximarmos dois campos magnéticos, produzimos correntes elétricas. Mas havia uma questão não respondida: qual o efeito da influência dos campos nos seres? Mais ainda, concluindo-se que somos capazes de produzir campos, passamos a procurar entender qual a sua contribuição para o restabelecimento da saúde de pessoas, animais ou plantas. Vários estudos acerca dos efeitos de passes, Reiki e outras técnicas estão sendo conduzidos pela comunidade científica para confirmar o que nós Espíritas, Reikianos, Deekshas Giver já presenciamos na prática.
Além disso, novos surpreendentes caminhos se abrem no maravilhoso mundo da Física Quântica. Como a Alice, do país das maravilhas, calcamos os próximos passos desta luta da ciência para explicar a natureza do universo.

Tenho certeza, muitas descobertas que foram apenas pinceladas pela codificação ainda estão por vir! 💮

Luz Estelar!

Referênicas:

[1] Kardec, Alan. Livro dos Espíritos. Paris, 1857.
[2] Bezerra, Valter Alnis. Artigo “Maxwell, a teoria do campo e a desmecanização da física.” São Paulo, 2006.
[3] Brito, Nathaly Barboza de; Fonseca, Celso Suckow da; Reis, Ueslei Vieira dos; Talon, Ivan Luis Miranda; Reis, José Claudio de Oliveira. Artigo “História da física no século XIX: discutindo natureza da ciência e suas implicações para o ensino de física em sala de aula”, Rio de Janeiro, 2014.
[4] A Genese
[5] Oliveira, Ricardo Monezi Julião de. Avaliação de efeitos da prática de impostação de mãos sobre os sistemas hematológico e imunológico de camundongos machos. Dissertação de Mestrado, USP, 2003.
[6] Obras postumas

[9] Marcel, Solto Maior. Kardec – A Biografia. (Livro)
[10] http://querosaberaverdadesim.blogspot.com.br/2013/04/os-fluidos-particula-de-deus.html (Artigo)

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